Goiânia, 31 de julho de 2025 — Uma mensagem no celular, um pedido de ajuda de uma amiga e, em questão de horas, um prejuízo de R$ 67.538,49. A história, vivenciada por uma advogada goiana que terá sua identidade preservada sob o nome de "Enila", expõe a brutalidade de um dos crimes que mais crescem no Brasil: o golpe do Pix. Após a fraude, ela decidiu lutar, e seu caso se tornou um exemplo de como as vítimas podem e devem reagir.
A Confiança como Arma do Criminoso
O golpe começou de forma sutil. A amiga, uma pessoa de confiança de longa data, supostamente havia trocado de número. A foto no perfil era a mesma, o jeito de conversar, familiar. Quando os pedidos de ajuda financeira começaram, Enila não hesitou.
As transferências via Pix foram feitas para contas de terceiros em quatro bancos diferentes — Banco do Brasil, Santander, Inter e C6 Bank. O rombo só aumentou, consumindo o saldo, o limite do cheque especial e até investimentos que precisaram ser resgatados às pressas. A descoberta veio da pior forma: em uma ligação para o número antigo da amiga, a verdade apareceu. "Meu WhatsApp foi clonado", disse a amiga. O desespero se instalou.
Da Angústia à Ação: A Luta Pela Reparação
Mesmo abalada, Enila agiu com a rapidez que a situação exige. Ela registrou múltiplos boletins de ocorrência, contatou cada banco para acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) — que foi negado —, e reuniu todas as provas: prints, comprovantes e os dados dos golpistas.
"A sensação é de violação total. Mexeu com meu dinheiro, mas principalmente com minha paz e meu psicológico. Os bancos, que deveriam garantir nossa segurança, simplesmente lavaram as mãos", desabafou Enila em entrevista ao O Goiano.
Foi Vítima de Golpe no Pix? O Guia Passo a Passo de Especialistas
A história de Enila serve de alerta. Segundo especialistas em direito bancário e do consumidor, a responsabilidade pela segurança das transações é das instituições financeiras. Se você for vítima, siga este plano de ação:
✅ PASSO 1: AJA IMEDIATAMENTE (O Tempo é Crucial)
- Contate seu banco: Ligue imediatamente para a central de segurança do seu banco e relate a fraude, solicitando o bloqueio dos valores e a ativação do Mecanismo Especial de Devolução (MED). Anote todos os números de protocolo.
- Registre um Boletim de Ocorrência (B.O.): Faça o registro online ou na delegacia mais próxima. Detalhe tudo o que aconteceu.
✅ PASSO 2: ORGANIZE SEU ARSENAL DE PROVAS
- Tire prints de todas as conversas com os golpistas.
- Salve todos os comprovantes de Pix e transferências.
- Anote os nomes e CPFs das contas que receberam o dinheiro.
✅ PASSO 3: FORMALIZE A RECLAMAÇÃO (Não Aceite o "Não")
Se o banco negar a devolução, suba o nível da pressão:
- Consumidor.gov.br: Registre uma reclamação detalhada contra seu banco e também contra os bancos que receberam o dinheiro.
- Banco Central (BACEN): Faça uma denúncia no sistema do BACEN, focando na falha de segurança e na recusa do MED.
✅ PASSO 4: BUSQUE SEUS DIREITOS
A Justiça tem entendido que a responsabilidade dos bancos é objetiva em casos de fraude (Súmula 479 do STJ). Se a via administrativa falhar, é possível ingressar com uma ação no Juizado Especial Cível, pedindo:
- A devolução integral do valor, com juros e correção.
- Indenização por danos morais pelo transtorno e abalo emocional.
Iniciativa de Apoio a Vítimas Ganha Destaque
Em meio a tantos casos, surgem iniciativas para orientar a população. Uma delas é o projeto "Dona Prerrogativa", que usa uma personagem de linguagem afiada e popular para traduzir o "juridiquês" e empoderar vítimas de golpes. Com postagens e orientações, a figura fictícia explica os direitos dos consumidores e os deveres dos bancos.
Foi através de projetos como este que Enila encontrou informações para fortalecer sua luta. "Entendi que a vergonha não pode ser da vítima, mas de quem falhou em protegê-la. Não podemos ficar calados", finaliza.