Sem 'penduricalhos', juíza fala em 'escravidão' — com salários acima de R$ 40 mil
Publicado em 20/04/2026 · Java Lacerda
Uma frase foi suficiente para incendiar o debate.
Durante sessão do Tribunal de Justiça do Pará, a desembargadora Eva do Amaral Coelho afirmou que a redução de benefícios pode levar magistrados a uma situação próxima de “condições análogas à escravidão”.
A repercussão foi imediata.
Principalmente por um detalhe.
Hoje, um desembargador pode receber mais de R$ 41 mil por mês.
A declaração surge após mudanças que limitaram os adicionais remuneratórios — os chamados “penduricalhos” — a até 70% do subsídio.
A medida, alinhada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), tenta conter o crescimento dessas verbas.
Mas, segundo a magistrada, o impacto já é sentido.
Em tom de desabafo, ela relatou que colegas estariam deixando consultas médicas e até interrompendo tratamentos por falta de recursos.
Também mencionou dificuldades no pagamento de despesas básicas.
Ao mesmo tempo, criticou o termo “penduricalhos”.
Na avaliação dela, a expressão distorce a realidade e ignora a carga de trabalho da magistratura — que inclui plantões, decisões fora do expediente e análise de processos em casa.
Mas foi a comparação que mudou o tom do debate.
Ao associar os cortes a uma possível “escravidão”, a fala ultrapassou o plenário e passou a dividir opiniões em todo o país.
E é aqui que o conflito se forma.
De um lado, magistrados apontam perda real de renda.
De outro, os números oficiais mostram uma remuneração que pode ultrapassar R$ 41.845,48, além de benefícios como auxílio-alimentação de R$ 3.500 e outras verbas previstas em lei.
O debate não é apenas jurídico. É de percepção.
Para muitos brasileiros, cortes de benefícios não são exceção.
São rotina.
E, na maioria das vezes, acontecem sem qualquer explicação clara.
Mas há um ponto que quase não aparece nessa discussão.
E que atinge um número muito maior de pessoas.
No serviço público, especialmente entre aposentados, mudanças de regras ao longo dos anos podem alterar completamente a composição da remuneração.
Gratificações deixam de ser pagas.
Adicionais desaparecem.
Verbas que antes existiam simplesmente somem do contracheque.
E o mais comum:
isso acontece sem que o servidor perceba na hora.
Muitos só descobrem anos depois.
Quando comparam com colegas.
Ou quando alguém analisa a estrutura dos valores recebidos.
Em vários casos, não se trata de um corte pontual.
Mas de uma perda acumulada ao longo do tempo.
A discussão pode ter começado na magistratura.
Mas o efeito real está em outro lugar.
Em quem passou décadas no serviço público e nunca revisou o que deveria estar recebendo.
Em muitos casos, a pessoa só percebe depois que deixou valores para trás — ou abriu mão de direitos sem saber.
Entender a própria situação pode fazer diferença.
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