Advogado apanha da polícia, vai para cela comum… mas a OAB entra em ação quando mexem com a IA do Judiciário
Publicado em 20/05/2026 · Java Lacerda
Primeiro vieram os sistemas.
Depois os robôs.
Agora, cresce dentro da advocacia a sensação de que o advogado comum se tornou a parte mais vulnerável da engrenagem.
A suspensão cautelar de duas advogadas pela OAB do Pará, após o episódio envolvendo “prompt injection” em um processo trabalhista, ultrapassou rapidamente o debate técnico sobre inteligência artificial. O caso virou combustível para uma revolta muito mais profunda: a percepção de que a Ordem reage com velocidade para punir advogados, mas permanece silenciosa diante de violações diárias de prerrogativas profissionais.
Segundo as notícias divulgadas nacionalmente, as advogadas teriam inserido comandos ocultos em uma petição para influenciar a leitura automatizada feita por inteligência artificial utilizada no ambiente judicial. A OAB-PA alegou risco à imagem institucional da entidade e aplicou suspensão cautelar de 30 dias.
Mas o episódio produziu uma pergunta desconfortável dentro da advocacia:
Se o próprio Judiciário já utiliza inteligência artificial, por que a advocacia não pode dialogar com a máquina?
Se o próprio Judiciário já utiliza inteligência artificial para leitura, triagem e análise de processos, por que causa tanto escândalo quando a advocacia tenta dialogar diretamente com esse novo ambiente tecnológico?
A pergunta ganhou força especialmente entre advogados que convivem diariamente com uma realidade muito distante dos discursos institucionais.
Em Goiás, relatos de violação de prerrogativas deixaram de ser exceção.
- Advogado impedido de acessar cliente.
- Advogado tratado como suspeito em delegacia.
- Advogado humilhado em audiência.
- Prisões em cela comum.
- Constrangimentos públicos.
Episódios que geram indignação na classe, mas raramente recebem resposta institucional proporcional.
É justamente aí que o caso do Pará encontrou terreno fértil para revolta.
Porque, para muitos profissionais, o problema não foi apenas a suspensão das advogadas.
Foi a rapidez.
A advocacia convive há anos com a sensação de abandono enquanto o Estatuto da Advocacia e a própria Lei de Abuso de Autoridade parecem perder efetividade prática diante da realidade dos fóruns, delegacias e tribunais.
O discurso institucional continua forte em solenidades.
Mas a advocacia comum começou a se perguntar se ainda existe proteção real fora dos eventos e campanhas.
A tecnologia virou o novo centro de poder dentro da advocacia
Tribunais avançam silenciosamente em automação, IA e sistemas de produtividade. Enquanto isso, milhares de advogados sequer sabem até que ponto decisões, triagens e análises já estão sendo influenciadas por inteligência artificial.
O caso do “prompt injection” acabou funcionando como um curto-circuito institucional.
Porque expôs algo muito maior:
a disputa pelo controle da linguagem das máquinas.
E isso atinge diretamente poder, influência e controle dentro do sistema de Justiça.
Mas o debate sobre tecnologia não para aí.
Dentro da própria advocacia, outra discussão começa a crescer de forma desconfortável.
Eleições eletrônicas da OAB também entram na mira das críticas
As eleições da OAB já ocorrem em muitos estados por meio eletrônico, inclusive por celular, sem auditoria pública ampla, sem fiscalização transparente acessível à advocacia comum e sob constantes questionamentos sobre rastreabilidade, segurança e sigilo absoluto do voto.
Para parte da classe, existe uma contradição cada vez mais difícil de ignorar.
A mesma advocacia que vê o discurso institucional falar em democracia, prerrogativas e garantias constitucionais também presencia um modelo eleitoral eletrônico interno cercado de dúvidas técnicas e baixa transparência prática.
E a pergunta começa a circular nos bastidores:
como uma entidade que deveria defender garantias fundamentais consegue exigir confiança cega em sistemas tecnológicos que poucos conseguem auditar?
O avanço da inteligência artificial dentro do Judiciário, somado à digitalização crescente da própria estrutura política da OAB, ampliou a sensação de distanciamento entre a advocacia comum e as cúpulas institucionais.
Por isso, para muitos advogados, o caso das advogadas suspensas no Pará deixou de ser apenas um debate disciplinar.
Virou símbolo.
Símbolo de uma advocacia que se sente pressionada pela automação, insegura diante das novas tecnologias e cada vez menos protegida institucionalmente.
Talvez o maior incômodo provocado por esse caso não esteja no “prompt secreto”.
Mas no que surgiu depois dele:
o medo de que o advogado comum esteja perdendo espaço não apenas para as máquinas… mas também dentro das próprias estruturas que deveriam defendê-lo.
Relate casos e participe da discussão
O Jornal O Goiano continuará acompanhando discussões envolvendo inteligência artificial, violações de prerrogativas, abuso de autoridade e os impactos da tecnologia dentro da advocacia e do Judiciário brasileiro.
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