Goiânia, GO – A capoeira, mais do que uma luta ou dança, é um dos mais potentes símbolos da resistência cultural e social do Brasil. Uma herança ancestral que, após séculos de perseguição, foi consagrada como Patrimônio da Humanidade e que, recentemente, teve sua força evocada no plenário do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). A analogia, feita pelo advogado goiano Dr. Java Lacerda durante uma sustentação oral, viralizou e reconectou a essência da capoeira à luta diária por direitos.
Das Senzalas à Criminalização: A História da Luta Disfarçada
Para entender a força dessa metáfora, é preciso voltar às origens. Criada por africanos escravizados e seus descendentes no Brasil, a capoeira nasceu como uma ferramenta de defesa disfarçada em ritual. Ao som do berimbau, atabaque e pandeiro, os movimentos acrobáticos e coreografados escondiam uma arte marcial letal, desenvolvida para resistir à brutalidade da escravidão.
Com o fim do regime escravocrata, a liberdade não veio sem novos desafios. Vista como uma ameaça à nova ordem, a prática da capoeira foi duramente reprimida e criminalizada pelo Código Penal de 1890. Seus praticantes, os capoeiristas, eram associados à vadiagem e marginalidade, sendo constantemente perseguidos, presos e agredidos pelo Estado.
A Volta por Cima: O Reconhecimento como Patrimônio
Apesar da repressão, a capoeira sobreviveu na clandestinidade, protegida em terreiros e periferias. A transmissão de conhecimento de mestre para aprendiz garantiu sua continuidade. Figuras icônicas como Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional, e Mestre Pastinha, grande defensor da Capoeira Angola, foram cruciais para mudar essa percepção. Eles organizaram a prática, deram a ela uma metodologia e lutaram por seu reconhecimento como esporte e cultura.
Graças a essa resistência, em 1937, a proibição foi revogada. Décadas depois, a consagração definitiva veio com o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, concedido pela UNESCO, celebrando sua importância mundial.
A Ginga Goiana nos Tribunais: Dr. Java e a Defesa das Prerrogativas
É nesse contexto de luta e resiliência que a capoeira ressurge como símbolo no coração de Goiás. Durante uma sessão no TJGO, o advogado Java Lacerda surpreendeu a todos ao usar a arte como metáfora para a advocacia.
“A defesa das prerrogativas, por vezes, é como a capoeira. Para quem não conhece, acha que é uma simples dança. Para quem conhece, sabe que se trata de uma luta, de uma luta pela liberdade, e que exige ginga”, declarou Dr. Java.
A fala, que rapidamente viralizou nas redes sociais, foi celebrada por juristas e pela comunidade da capoeira em todo o Brasil. Ela destaca a "ginga" não apenas como um movimento corporal, mas como uma expressão de inteligência, estratégia e adaptação. Assim como o capoeirista precisa de astúcia para se defender e contra-atacar no jogo, o advogado necessita de sagacidade para proteger os direitos e as garantias fundamentais da cidadania contra possíveis abusos.
A analogia de Dr. Java conecta o passado de resistência da senzala com as batalhas por justiça do presente. Mostra que a capoeira segue viva, inspirando e dando nome à luta pela liberdade, seja nas rodas, nas academias ou, como provado em Goiás, nos plenários dos tribunais.